Três laços, três verbos
Valorizar, envernizar e domesticar
Fazer um laço costumava ser uma habilidade. No entanto, hoje em dia, a maioria dos laços já não se ata, compra-se pronto e aplica-se.
E o que muda quando o laço deixa de ser feito para ser simplesmente aplicado?
Talvez torne ainda mais visível a intenção, a escolha de colocar um laço.
Num presente, numa situação ou num corpo que “merece” (ou precisa de) ser embelezado.
Nesta edição, propõem-se três leituras do laço, à boleia da conjugação de três verbos: valorizar o que se oferece, envernizar o desconfortável e domesticar o que se infantiliza.
Logo à Entrada, é-nos feita uma pergunta:
Vamos cortar a fita que inaugura a 11ª leitura-exposição?
SALA 1 » O laço que valoriza
Um presente sem laço pode parecer incompleto. Como se faltasse algo.
Mais do que funcional, o laço é um marcador de ritual: sinaliza que aquele objecto deixou de ser “mercadoria”. Algo foi acrescentado, mesmo que esse acréscimo não tenha um propósito prático (a não ser, ser visto).
É curioso porque no final do século XIX, quando, o sociólogo e economista, Thorstein Veblen observava padrões gerais de consumo nas classes abastadas, escreveu sobre esta ideia de o valor social de um bem nem sempre residir na utilidade, mas, muitas vezes, no excesso visível.
Gastar tempo, dinheiro ou recursos em algo que “não serve para nada” pode ser uma forma de mostrar estatuto, cuidado ou afeto. Visto assim, o laço encaixa bem nesta lógica que Veblen chamou de “desperdício conspícuo”: um desperdício esteticamente apelativo, deliberado e socialmente legível.
Esse desperdício, no entanto, não é apenas conceptual ou simbólico. É também material. Todos os anos, toneladas laços e papel de embrulho são produzidas para durarem segundos.
🎀 Acreditas que o laço é, em certa medida, o que transforma algo comprado em algo oferecido?
🎀 Já experimentaste fazer laços com materiais reutilizáveis?
🎀 Costumas guardar os laços de presentes que recebes ou vão directamente para o lixo?
Se o laço pode valorizar através do excesso visível, também parece funcionar noutro registo: o da suavização. Há contextos onde pôr um laço não é tanto para celebrar, mas para suavizar, amenizar. Entramos agora nesse território.
SALA 2 » O laço que enverniza
Há laços em lugares inesperados: em arranjos florais para hospitais, em embrulhos que acompanham despedidas ou más notícias, em cerimónias diplomáticas enquanto guerras decorrem.
O laço aparece precisamente quando a realidade está nua, crua, desconfortável, e alguém decide que seria melhor “embelezá-la” para aliviar tensões ou sofrimento.
Nas relações internacionais, esta dinâmica torna-se particularmente visível. Enquanto bombardeamentos destroem cidades, diplomatas reúnem-se em salas decoradas, com discursos cuidadosamente embrulhados em formalidades.
Há protocolos, cerimónias, fitas inaugurais cortadas, que criam uma camada estética sobre a violência em curso.
A guerra continua, mas a linguagem e os rituais diplomáticos aplicam verniz. “Operação de Paz”, “danos colaterais”, “intervenção humanitária” - expressões que funcionam como laços verbais sobre a brutalidade da realidade.
O conflito, a tristeza, a morte (ou a sua proximidade) tornam-se território de laços, onde lidera a “positividade estética”, utilizando a expressão de Byung-Chul Han, e se perpetua uma exigência de se ser/estar/mostrar “bem”.


🎀 Até que ponto a estética e os protocolos nos distanciam da realidade dolorosa que pretendem “embelezar”?
🎀 Os laços (físicos ou verbais) podem ocultar responsabilidades ou verdades incómodas?
🎀 Em que medida o verniz diplomático transforma a violência em algo tolerável aos olhos do público?
O laço valoriza, enverniza e também parece classificar. Marca corpos, idades, papéis sociais. Nesta última sala, perguntamos: Quem é enfeitado com laços e o que essa marcação pode revelar sobre produção, ação e aparência?
SALA 3 » O laço que domestica
Existem contextos onde um laço seria impensável.
Por exemplo, não vemos laços em capacetes de obra, fardas militares, uniformes de bombeiros ou em determinadas modalidades desportivas.
Longe do esforço físico, da produção e do confronto direto, o laço parece pertencer ao universo infantil, ao cuidado estético e a uma delicadeza encenada.
Vale a pena analisar esta dicotomia, uma vez que ela revela hierarquias implícitas sobre quem “deve” ser decorativo vs. funcional.
Historicamente, os laços surgem com maior frequência associados a corpos femininos e infantis, e a formas de apresentação que evocam feminilidade ou recato.
Em contextos profissionais, isso ficou visível em certos uniformes do século XX, como é o caso de enfermeiras, empregadas domésticas ou hospedeiras de bordo, reforçando expetativas de género estereotipadas.
E não se restringem apenas a humanos. Também aparecem em animais de estimação em exposições ou concursos, reforçando o mesmo princípio de marcar aquilo que deve ser visto como delicado, apresentável e não-ameaçador. Já reparaste?

🎀 Até que ponto a distinção entre “decorativo” e “funcional” influencia a forma como percebemos autoridade, competência e importância?
🎀 Que valores ou normas sociais persistem quando associamos ornamentação e inferioridade a determinados corpos ou funções?
🎀 Usar laços não é negativo ou opressivo em si. Mas como podemos ressignificar a delicadeza e submissão, transformando o uso do laço num gesto de poder, crítica ou resistência?
O que levamos desta exposição?
À Saída, lê-se:
Três salas. Três laços. Três verbos.
1. O laço que valoriza
Este laço transforma algo comprado em algo oferecido. Neste caso, o desperdício (de tempo, material e recursos) é a mensagem de valor. Práticas de reutilização deslocam esse valor, mas encontram uma certa resistência ao tentar eliminar o ritual da oferta.
2. O laço que enverniza
Este laço carrega a promessa de atenuar o desconforto. No entanto, a positividade estética também nos pode oprimir, insensibilizar ou distanciar do que importa.
3. O laço que domestica
Este laço diz-nos quem pertence ao domínio da delicadeza, e dificilmente ao da ação. Ainda que orquestre expetativas sociais, o seu uso também pode questionar hierarquias - sem a garantia de as dissolver.
Um convite antes da despedida
Esta época natalícia traz muitos laços. Literais e metafóricos.
Não há uma única forma de viver o Natal, e todas são legítimas.
Por isso, desejo que tenhas tempo e espaço para passar estes dias sem a pressão sobre como devem ser vividos ou celebrados.
Um abraço!
Leituras-exposição, uma série especial do Plano de Fuga
Esta série reúne textos que nos convidam a refletir de forma multidisciplinar sobre objetos do nosso quotidiano.
Mostra-nos que pequenas coisas podem carregar histórias, memórias e camadas implícitas.
Cada leitura-exposição oferece três salas, três lentes, três modos de ver o mesmo objeto.
Nesta 11ª edição o destaque foi dado ao laço, a seguir à borracha, ao dicionário, ao pente, ao prato, à tesoura, à almofada, à agulha, à cadeira, ao documento de identificação e ao dinheiro.





