Cadeiras que nos dizem quem somos
Ou como sentar poder, autonomia e invisibilidade
A cadeira que escolhemos (ou que nos é atribuída) raramente é neutra.
— Pode mostrar quem está no topo e quem está na base.
— Pode determinar quem se desloca livremente e quem encontra (mais, ou menos) obstáculos.
— Pode revelar quem é visto e quem é esquecido.
Três salas. Três formas de nos sentarmos no mundo.
Logo à Entrada, convidam-nos a ficar mais leves. Podemos deixar o nosso casaco aqui:
Vamos visitar a primeira sala?
SALA 1 » A cadeira que orquestra poder
No tribunal, há três cadeiras principais: a do juiz (elevada e central), a do réu (exposta e vulnerável) e a do júri (coletiva, mas silenciosa).
Na geografia da sala de audiências, cada cadeira define um papel, uma distância e, por vezes, um destino.
As cadeiras, neste cenário, são objetos que participam numa narrativa de justiça, autoridade e ordem. Não são “apenas” mobília.
O mesmo acontece nas salas de aula, nos parlamentos ou conselhos de administração.
A cadeira à cabeceira da mesa pode ser um “trono” e, mesmo vazia, pode transmitir uma mensagem de ausência estratégica, protesto ou boicote.
Não é por acaso que falamos em “conquistar uma cadeira” ou em “ocupar um lugar à mesa”. A cadeira materializa o direito de estar presente, de ser ouvido ou de participar na decisão.
Em contraste com essa lógica de poder, existe uma forma simples de acolher em vez de limitar, com a simples frase: “Puxa uma cadeira e senta-te.” Neste caso, o assento deixa de hierarquizar e passa a aproximar.
Por exemplo, em círculos comunitários ou em rodas de conversa, o topo e o centro tendem a desaparecer e ninguém fica de fora. E isso, muitas vezes, gera algum desconforto ou estranhamento nos participantes.
Talvez porque o tão conhecido jogo das cadeiras nos diz, de forma lúdica, o contrário: quando a música pára, alguém tem de ficar em pé. Ou, por outras palavras, os “recursos” são escassos e as cadeiras não chegam para todos.
🪑 Que lugares escolhes sem dar por isso? E o que é que esses automatismos podem dizer sobre ti?
🪑 Quando te sentas, preferes a margem, o centro ou o fundo da sala?
🪑 Em casa ou no trabalho, já reparaste como a disposição das cadeiras (e o tipo de cadeiras) influencia a conversa?
Saímos da Sala 1 com a confirmação de que uma cadeira não é “só” uma cadeira e, na sala seguinte, vamos aprofundar esse olhar. De outra forma.
SALA 2 » A cadeira que é a extensão de um corpo
Durante muuuito tempo, a cadeira de rodas esteve confinada a hospitais, asilos ou casas particulares. Quem a usava raramente era visto no espaço público.
Hoje em dia, ouvimos constantemente a expressão “mobilidade reduzida”. Mas, afinal, quem é que tem a mobilidade reduzida? O corpo ou a cidade?
Se olharmos de perto, a cadeira de rodas não limita: ela dá mobilidade. O que é problemático são os degraus sem rampa, os passeios estreitos, as portas pesadas ou os transportes inacessíveis.
E, ainda assim, a acessibilidade continua a ser tratada como gentileza, esforço extra ou adaptação progressiva.
Para remar contra o preconceito e o discurso capacitista, importa conhecer o trabalho da Catarina Oliveira (@especierarasobrerodas). É nutricionista, ativista e criadora de (excelente) conteúdo nas redes sociais.
🪑 Se a tua autonomia dependesse de rampas e elevadores, quantas vezes por dia ficarias preso(a)?
🪑 Quando pensas em acessibilidade, pensas logo em direitos?
🪑 Que partes da tua cidade te mostram que a acessibilidade já é uma prioridade?
À medida que nos aproximamos da última sala, vemos que a cadeira passa a ser um objeto artístico que denuncia outro tipo de desigualdades.
SALA 3 » As cadeiras que se empilham (e esquecem)
À primeira vista, são apenas cadeiras.
No entanto, nenhuma destas 1.550 cadeiras foi colocada para sentar alguém.
Entre dois edifícios de uma rua em Istambul, a artista colombiana Doris Salcedo criou esta instalação artística: uma torre de cadeiras encaixadas, comprimidas e empurradas umas contra as outras, que forma uma estrutura vertical frágil e monumental.
De longe, parece um caos. De perto, percebemos a intenção da artista: cada cadeira evoca a ausência de alguém, de uma casa, de um quotidiano interrompido.
Salcedo descreveu a obra como uma “topografia da violência”: uma paisagem construída não de terra, mas de ausências.
É como se a acumulação apagasse a individualidade. Vidas que ficaram anónimas e corpos que deixaram de ocupar espaços, lares e rotinas.
A obra também pode ser lida como um comentário sobre estruturas sociais e económicas: muitas sociedades dependem de pessoas que se deslocam, não por escolha, mas por necessidade, e as suas contribuições permanecem na sombra.
🪑 Quem são as pessoas invisíveis que sustentam o que chamamos de “normalidade”?
🪑 Que histórias se perdem quando deixamos de reparar em quem falta?
🪑 Como podemos dar voz/visibilidade a essas histórias?
O que levamos desta exposição?
À Saída, lê-se:
Três cadeiras. Três leituras. O mesmo objeto.
1. A cadeira que orquestra poder lembra-nos que o lugar que ocupamos nunca é neutro. Cada assento define papéis, hierarquias e possibilidades.
2. A cadeira que é a extensão de um corpo dá autonomia. Não é o corpo que limita, mas o espaço que deve ser pensado para ser verdadeiramente inclusivo.
3. A cadeira que se empilha e denuncia ausências. Cada cadeira vazia lembra vidas que passam despercebidas e histórias não (re)conhecidas.
Um convite antes da despedida
Acredito que nenhuma pergunta cabe inteira numa só disciplina. Por isso, esta forma de olhar, que recusa fronteiras e revela o que passa despercebido, é aquela que também aplico no desenho de experiências de aprendizagem.
Porque um curso, uma palestra ou um evento memorável funciona como uma exposição que vale a pena visitar: tem um fio condutor, gera perguntas e transforma quem a percorre.
Se tens uma causa clara, muito conteúdo criado e procuras transformar o que está disperso em formatos que surpreendem, provocam e servem a profundidade do teu trabalho, fica a conhecer, aqui, os 3 formatos de colaboração do Plano de Fuga.
Leituras-exposição, uma série especial do Plano de Fuga
Esta série reúne textos que nos convidam a refletir de forma multidisciplinar sobre objetos do nosso quotidiano. Pequenas coisas podem carregar histórias, memórias e camadas implícitas.
Cada leitura-exposição desta série oferece três salas, três lentes, três modos de ver o mesmo objeto.
Nas edições anteriores já tivemos oportunidade de ver à lupa sete objetos: a borracha, o dicionário, o pente, o prato, a tesoura, a almofada e a agulha.
A partir do momento em que a exposição estreia, não tem data de encerramento. Por isso, aproveita para espreitar aquelas que despertarem a tua curiosidade!









Além da reflexão que propõe, uma das coisas que gosto mais nesta série é a descoberta das obras de arte 😍