Nós e o Dinheiro
Sociologia, história e filosofia de uma ficção coletiva

Quando foi a última vez que reparaste, com atenção, nos detalhes de uma moeda ou de uma nota?
O dinheiro é talvez o objeto mais manipulado das nossas vidas e, ao mesmo tempo, dos mais invisíveis. Passa de mão em mão como se fosse neutro ou como se não carregasse nada além do valor que anuncia.
No entanto, ele organiza hierarquias, desenha relações, diz quem pode/quem não pode e é, simultaneamente, concreto e abstracto.
Atualmente, assistimos, cada vez mais, à sua desmaterilização. Está a migrar do bolso para o digital, do gesto físico para um toque instantâneo num ecrã ou um clique amnésico.
Nesta leitura-exposição, vamo-nos focar naquilo que o dinheiro “faz” enquanto circula.
Mais especificamente, como molda vínculos, como guarda memória e como parece precificar a realidade.
Vamos a isso?
Começamos pela nossa relação quotidiana com o dinheiro.
SALA 1 » O dinheiro nunca é só dinheiro
Todas as relações têm uma economia. Não no sentido frio da transação, mas no sentido de que algo circula entre as pessoas: gestos, palavras, tempo, cuidado. E dinheiro.
Quando pagas uma gorjeta, quando recebes um envelope de um familiar, quando divides a conta com amigos, cada uma dessas ações revela algo sobre como te posicionas no mundo, sobre o que consideras justo, sobre a distância/proximidade que estabeleces com o outro.
A socióloga argentina Viviana A. Zelizer demonstrou algo aparentemente paradoxal: apesar de o dinheiro ser formalmente equivalente, nós marcamo-lo socialmente.
Tratamos o salário de forma diferente da herança, a gorjeta de maneira diferente da esmola, dinheiro ganho com esforço de modo diferente daquele que é recebido por sorte.
O dinheiro arrasta consigo significados sociais, marcas de classe, género, geração. Depende de quem dá, a quem e em que contexto.
No Natal, esta dimensão social do dinheiro torna-se particularmente visível.
Para além de ser um período do ano que facilmente se transforma num pico de performance e comparação, tendemos a ser avaliados com base no nosso poder de compra e podemos ser iludidos pela mentira de que as necessidades emocionais são bens que podemos adquirir.
💵 Quando foi a última vez que o dinheiro te fez sentir em dívida com alguém?
💵 Que necessidade emocional já tentaste resolver com uma compra?
💵 Alguma vez compraste um presente mais caro do que querias porque te sentiste pressionado/a?
Esta marca social que o dinheiro carrega não é algo recente. Quando olhamos para trás, vemos séculos de moralização, controlo, tentativas de domesticar o lucro e disciplinar o desejo. O corredor que nos leva à próxima sala assemelha-se a uma carruagem de um comboio e o convite é claro: Vamos fazer uma viagem no tempo?
SALA 2 » Cada nota é um arquivo político
Olha para uma nota antiga. Há um rosto, símbolos, uma assinatura. Quem está ali representado? Quem decidiu o que é apresentado?
O dinheiro sempre foi político. Cada reforma monetária influencia a memória coletiva ao definir o que merece ser lembrado e como.
Em Portugal, as notas de escudo funcionaram durante décadas como pequenos manifestos ideológicos.
O Estado Novo transformou-as em instrumentos de propaganda através de figuras históricas cuidadosamente escolhidas, símbolos de glória imperial ou referências à expansão marítima.
Cada nota era uma narrativa sobre quem o regime queria que fôssemos.
Não era apenas dinheiro a circular: era uma versão oficial da identidade nacional, repetida milhares de vezes ao dia, naturalizando-se. O dinheiro educava, disciplinava o imaginário e controlava a memória.
Depois, em 2002, o escudo desapareceu. No seu lugar, chegou o euro. Uma moeda sem rosto nacional, sem heróis locais, sem uma narrativa nacional e notas com arquiteturas genéricas.
Foi uma mudança impactou o nosso dia-a-dia de forma prática, mas também simbólica: queria consolidar-se uma identidade europeia, partilhada através da circulação de notas e moedas comuns.
💵 Lembras-te de alguma figura ou símbolo das notas de escudo?
💵 Sabes quem (ou o que) está representado nas moedas que usas diariamente?
💵 Se a União Europeia propusesse que cada país tivesse notas com elementos nacionais, o que destacarias na tua proposta?
Por baixo das camadas sociais e históricas, talvez valha a pena perguntar: Como é que algo sem valor intrínseco passou a valer tanto?
SALA 3 » O valor de uma crença
Podemos dizer que o dinheiro é uma ficção coletiva? Talvez.
No passado, já teve valor em si mesmo, mas depois passou a ser apenas papel, metal ou um código digital.
Ou seja, o dinheiro vale porque acreditamos que vale e porque confiamos que outros também acreditarão.
No seu livro, Sapiens: História Breve da Humanidade, Yuval Noah Harari observou que o dinheiro é provavelmente o sistema de crenças mais bem-sucedido da história humana, estando à frente de qualquer religião ou ideologia.
No entanto, há aqui uma confusão que merece a nossa atenção: preço, valor e significado não são a mesma coisa.
— O preço é objetivo: um número fixo, algo que se mede e se compara.
— O valor depende do contexto, da urgência, da escassez. Não é fixo e flutua conforme as circunstâncias.
— O significado é íntimo e intransferível: faz com que um anel herdado valha mais do que o ouro de que é feito, ou que uma carta escrita à mão tenha um peso emocional que nenhuma transferência bancária consegue replicar.
O problema surge quando o preço se torna na única métrica possível, erodindo o valor e apagando o significado. Quando passamos a tratá-lo como algo com poder autónomo.
Nesse processo, tudo parece reduzir-se a um número: tempo, atenção, cuidado e dignidade.

💵 Lembras-te da última vez que não compraste algo que podias pagar? O que pesou mais: o preço ser demasiado alto, o valor ser insuficiente ou a ausência de significado?
💵 O que é que na tua vida ainda resiste à lógica do preço e não consegues precificar?
💵 O que perdemos quando tudo é métrica?
À Saída, o que levamos desta exposição?
Três salas. Três leituras do dinheiro.
1. Da sociologia, fica a percepção de que o dinheiro nunca circula de forma neutra. Carrega relações, hierarquias, mais do que uma transação. Dar e receber não são verbos inócuos.
2. Da história, fica a consciência de que cada nota é um arquivo político. O dinheiro educa o imaginário e molda a memória coletiva.
3. Da filosofia, fica a reflexão sobre o dinheiro enquanto um dos sistemas de crenças mais bem-sucedidos da humanidade e a erosão do valor e do significado, quando o preço monopoliza a análise.
Um convite antes da despedida
Tal como esta leitura-exposição, também os cursos, palestras e eventos requerem uma triagem e curadoria de conteúdo.
Uma escolha cuidadosa e estratégica daquilo que se inclui (e exclui), como se organiza e de que forma as diferentes peças do puzzle vão interagir.
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Leituras-exposição, uma série especial do Plano de Fuga
Esta série reúne textos que nos convidam a refletir de forma multidisciplinar sobre objetos do nosso quotidiano. Pequenas coisas que carregam histórias, memórias e camadas implícitas.
Cada leitura-exposição oferece três salas, três lentes, três modos de ver o mesmo objeto. Nesta edição o destaque foi para o dinheiro, a seguir à borracha, ao dicionário, ao pente, ao prato, à tesoura, à almofada, à agulha, à cadeira e ao documento de identificação.
Espreita as edições anteriores! :)






Estou com as leituras do Substack em atraso. Qdo reservei meu tempo para ler e escolhi sua edição me senti feliz por ter chegado até aqui.
Gosto da sua escrita e adorei a temática. Os convites a reflexão, as curiosidades expostas e o despertar do interesse em ir além do que o que aqui foi proposto não sendo pouco, mas suficientemente provocativo.
Obrigada pela partilha 🙏