Um postal antes do fim do mundo
De mim, Para ti
Um postal parte de um ponto, um De.
E encaminha-se para outro, um Para.
Parte de um, ou mais, remetentes.
Chega a um, ou mais, destinatários.
Ou não chega.
Ou chega tarde demais.
Ou chega, e fica por abrir.
Antes de enviar, recebi.
Recebi postais mesmo antes de saber ler.
Recebi postais que não pedi.
E recebi postais que abro e procuro interpretar, auscultar.
Recebi um postal feito de oxigénio e de ancestralidade.
Recebi um com raízes e um com traumas que não eram meus, ainda que tenha viajado o meu nome no envelope.
Recebi outro que sabia cantar, vinha numa língua que alguém guardou para que eu a pudesse aprender (e virá-la de pernas para o ar).
Recebi um que voava e outro que pesava como silêncio indesejado.
Recebi outro com sabor a lúcia-lima e ainda outro com o perfume de uma infância com colo.
Depois de receber, enviei.
Para os que estão.
Para os que ainda não chegaram.
Para os que não vou conhecer, mas que irão receber o que hoje coloco no correio.
Agora, aguardo…
E enquanto aguardo, pergunto-me: “Que postais estamos a enviar para o mundo?”
Que postais estamos a enviar
…para as florestas?
…para os oceanos?
…para o ar?
…para os rios?
…para o solo?
…para as sementes que ainda não germinaram?
…para os animais que ainda não têm nome?
…para os outros, como nós, que estão cá, e para os que vêm a seguir?
E que postais estamos a receber
…dessas florestas?
…desses oceanos?
…desse ar?
…desses rios?
…desse solo?
…dessas sementes?
…dos animais sem nome?
…do outro, dos outros?
Entretanto, a troca também vai acontecendo sem nós.
Pois há postais que nunca foram para nós e que nós, mesmo assim, interferimos na correspondência.
A floresta, por exemplo, também envia postais ao ar.
O rio também escreve ao solo.
A raiz também conversa com os fungos.
A semente também responde à chuva.
E também há a avó que envia um postal à neta que ainda não nasceu.
Da mesma forma que um carvalho envia um postal para a bolota que ainda não caiu.
Ou uma língua que envia um postal para quem a fala, sem saber que a está a preservar.
Da mesma forma que um rio envia um postal para o mar sem saber que vai voltar (precipitado).
Correspondências que desconhecemos.
Linguagens às quais não acedemos.
Circuitos de envio e receção que existem à nossa revelia: entre espécies, entre tempos, entre espaços, entre mundos.
Não somos os únicos remetentes nem os únicos destinatários.
Nunca fomos.
E talvez o fim do mundo seja quando o mundo deixar de ser habitável para a troca.
Para a troca de postais de diferentes origens, matérias e composições.
O desencantamento não é o caminho.
O desencanto extermina o possível.
E nós precisamos de reinventar o possível.
De sonhar o impossível para o possibilitar.
Comecemos por abrir a nossa caixa, com mais demora e cuidado.
E, sobretudo, com a consciência de que há postais que não podem esperar (mais).
Eu já recebi.
Enviei.
E agora, aguardo a tua resposta.
Costuras da Linguagem, a nova série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.






Que bonito e inesperado!