Quando a Europa se veste de universal
Mas o tamanho único não serve
Experimentar roupa nem sempre é uma experiência agradável, sobretudo quando os tamanhos únicos não têm nada a ver connosco.
O tecido não cede… Ou cede demais.
E o corpo e o corte não se entendem.
Esta ideia one size fits all parte da expetativa de que todos os corpos se irão aproximar o suficiente daquele modelo.
No entanto, muitas vezes, isso não acontece. Nem na roupa, nem na História.
Durante séculos, palavras, categorias e ferramentas de análise foram produzidas (e reproduzidas) num contexto muito específico, o da Europa moderna.
E, depois, o seu uso generalizou-se além-fronteiras, como se o tecido da realidade tivesse sempre na sua etiqueta “Made in Europe”.
Mas como é que o pensamento produzido num lugar específico do mundo se tornou o único pensamento capaz de explicar o mundo inteiro?
Foram estas (e outras inquietações) que guiaram o historiador indiano Dipesh Chakrabarty ao desenvolver a ideia de provincializar a Europa.1
Tal como ele escreve, no domínio da História, a Europa continua a ser o sujeito teórico de todas as histórias.
As histórias de outros lugares (as da Índia, do Brasil e de tantas outras ex-colónias) acabam por ser variações de um tema maior, cujos contornos foram desenhados a partir de um centro que não se questiona a si próprio.
Chakrabarty relata que é comum os historiadores dos “países em desenvolvimento” sentirem uma necessidade constante de se referir à história europeia nos seus trabalhos, enquanto os historiadores europeus não sentem essa necessidade e produzem os seus trabalhos com relativa (ou total) ignorância das histórias não-ocidentais - sem que isso belisque o seu reconhecimento.
E o que é irónico é o facto de o eurocentrismo não se impor apenas pela força, mas, sobretudo, pela ideia de “progresso”, como direção natural da história ou como se a temporalidade tivesse apenas uma “modalidade”, a europeia.
Neste âmbito, Chakrabarty desenvolve a ideia de “sala de espera”, já que os países não-ocidentais parecem estar confinados a este espaço de atraso, falta e lacuna em relação a um “ideal progressista”.
E, se repararmos, a linguagem reforça esta sala de espera. Ora são países do Terceiro Mundo, ora são países em desenvolvimento.
Em desenvolvimento segundo que linha de corte? Definida por quem e quando?
Ainda assim, a proposta de Chakrabarty não é apagar o legado europeu. Ele diz-nos que o pensamento europeu é, em simultâneo, indispensável e inadequado para compreender a modernidade em contextos não-ocidentais.
Indispensável
porque foi esse o tecido com que grande parte do mundo foi forrado. As suas categorias estão na costura das instituições, leis, disciplinas académicas e da própria ideia de história. Os moldes europeus estão, de forma inevitável, dentro da linguagem com a qual pensamos.
Inadequado
porque esse tecido foi cortado para um corpo específico, num momento específico e carrega dentro de si os contornos desse corpo mesmo quando aplicado a outros muito diferentes. As suas ferramentas foram feitas para analisar certas formas de consciência, organização política e resistência. Quando encontram formas que não reconhecem, tendem a classificá-las como primitivas ou pré-modernas e o que não se lê nos seus próprios termos acaba por ser simplificado, estereotipado e transformado num exotismo, sem que tenha de haver uma intencionalidade ou maldade envolvidas.
Por isso mesmo, precisamos de incluir as ambivalências e as contradições.
E, como o próprio Chakrabarty reconhece, esta missão não é, de todo, fácil.
Ainda assim, já é um ponto de partida usar este tecido, que é a linguagem, sabendo que ele não é a única forma de fazer roupa e de produzir sentido(s).
Há mais histórias.
Há outras histórias.
Vozes, memórias, formas de estar e de pensar, que foram silenciadas neste processo de universalização.
Conhecimento que não está arquivado ou “reconhecido”.
E o resgate dessas histórias não tem de ser um projeto de compensação ou a forma de “validar” o que não segue o cânone europeu.
Pode ser uma aposta na pluralidade e na possibilidade de um mundo que se lê a partir de mais do que um centro.
Uma coisa já percebemos: a Europa fica curta nas mangas do mundo. E precisamos, mesmo, de outros tecidos historiográficos.
*Nota: À partida, “segundo” é uma palavra que não pertence à família das preposições. No entanto, é considerada uma preposição acidental quando é usada com o sentido de "conforme" ou “de acordo com”, por cumprir o papel de uma preposição.
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.
“Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference” | Livro de Dipesh Chakrabarty (2000)




