Os dados que nos tornamos
E os dados que deixamos de lançar
Antes do lançamento, a mão fecha-se.
Sentimos o peso leve dos dados e as suas faces frias.
Depois, a nossa mão solta esses dados e é nesse “instante após” que surgem os pontos de interrogação: O que virá? Que número irá sair?
Desconhecemos o resultado e, nesse espaço de indeterminação, podemos começar a questionar o que está em causa quando a IA entra em jogo.
A inteligência artificial já sabe o que cabe no campo do provável. Lê a informação, deteta padrões, reconstrói o histórico e projeta probabilidades.
Nas palavras do filósofo Marcus Bruzzo, a IA “acelera processos” porque não se cansa, “organiza” porque não sonha e “responde” porque não desconhece.1
Podemos ler isto como um elogio à eficiência, mas também como um diagnóstico da nossa suposta fragilidade, por termos emoções, memórias e expetativas.
E, aos poucos, começamos a habituar-nos à ideia de que hesitar é uma falha e torna-se cada vez mais desafiante reconhecermos a nossa condição humana nessa relação.
Estaremos a deixar de lançar dados e a ficar apenas pelas opções que nos são apresentadas pela IA?
A IA aprende depressa as seis faces do dado, mas o ser humano não se limita às seis faces. Tem muitas mais, e aceitar caber nessa probabilidade acaba por empobrecer o território do possível.
Já que podem ser faces que aparecem uma vez e, depois, desaparecem.
Faces moldadas pelas mãos de quem lança.
Faces que mudam conforme as circunstâncias.
Algumas contraditórias. Outras incoerentes.
Felizmente, a imprevisibilidade humana faz com que a geometria dos dados continue a mudar enquanto os seguramos, e é precisamente essa instabilidade que nos permite recusar fechar o universo, ao conhecido e ao rastreável.
Vale a pena continuar a lançar os dados. Quando deixamos de fazê-lo, desistimos de ser surpreendidos por um após não premeditado.
Lancemos os dados!
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.
“Seremos Dados: A filosofia da perda do espaço humano para a inteligência artificial" | Livro de Marcus Bruzzo (2026)




