Oração ao Tempo
O corpo, as vírgulas e o arquivo numa agenda
Logo à Entrada, somos recebidos com Caetano Veloso:
“Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo”
Nesta Oração ao Tempo, estamos perante um pedido, uma negociação, um acordo impossível entre o que se perde e o que fica.
A agenda é precisamente isso: uma tentativa de acordo com o tempo. Uma tecnologia ancestral de negociar entre o que gostaríamos de fazer e o que é possível fazer. Entre a promessa e a finitude.
No jardim-de-infância, aprende-se a primeira gramática desse acordo, com o ontem-hoje-amanhã.
O calendário de parede com as suas abas coloridas era um ritual de reconhecimento: o tempo como presença partilhada, visível, que se pode tocar. As estações pintadas a guache, os meses associados a fenómenos: Setembro e as folhas que caem, Dezembro e a neve, Março e as flores.
Depois, a agenda rapidamente se torna uma ferramenta de produção. Migra do papel para o ecrã. Desmaterializa-se em notificações e blocos editáveis. E, assim, muda-se a natureza do acordo.
Torna-se um acordo mais flexível, mais veloz, mais permeável. Também mais fragmentado e exigente. E onde cabe, muitas vezes, aquela culpa do “Podia ter feito mais”.
Esta leitura-exposição é sobre os diferentes acordos que fazemos com o tempo através das nossas agendas. Não para julgar se são bons ou maus, mas para torná-los visíveis e, quem sabe, ponderar renegociá-los.
Vamos visitar a primeira sala?
SALA 1 » Quando o tempo perde corpo
A agenda de papel tem limites físicos. Espaço finito na página. Tinta que não se apaga por completo.
Cada compromisso ocupa um lugar “real” e este objeto é finito: a última página é o dia 31 de Dezembro e, depois, é preciso uma agenda nova. Há um ciclo que começa e termina, de forma concreta, visível.
A agenda digital nunca acaba. Desliza infinitamente para a frente. Podes já estar a marcar reuniões para 2027, enquanto ainda estamos em 2025. Não há colheita, não há Inverno para descansar a terra.
Promete uma elasticidade infinita: sobrepor reuniões, arrastar blocos, copiar eventos, sincronizar fusos horários. E puff! O tempo desmaterializa-se.
No entanto, os corpos não se digitalizaram. Continuamos a ter um só corpo, uma só atenção, uma só presença. E, por isso, com esta digitalização escapa-nos entre os dedos a relação com os ritmos naturais, nomeadamente o tempo (e os limites) do corpo.
O corpo tem tempo próprio. Uma energia que sobe e desce ao longo do dia, semanas em que se está mais criativo, e outras em que está mais operacional.
Ainda assim, a agenda digital trata segunda-feira às 9h da mesma forma que sexta-feira às 17h. Não diferencia os meses mais escuros, frios e introspetivos daqueles com mais luz, calor e expansão.
Além disso, a digitalização intensificou também a linguagem económica do tempo. “Rentabilizar tempo” / “Otimizar tempo”. Como se o tempo fosse um capital acumulável e não algo que passa sempre à mesma velocidade, quer a agenda esteja vazia ou sobrelotada.
Hoje em dia, temos uma perceção de controlo sobre o Chronos, aquele que é o tempo medido, administrado, distribuído. Kairos, o tempo que é gestado, foi erodido e, em certa medida, esquecido ou desprestigiado.

🗓️ Quando foi a última vez que ajustaste a tua agenda ao ritmo do teu corpo, e não o contrário?
🗓️ Como seria uma semana organizada pelos ciclos naturais, em vez de por blocos uniformes?
🗓️ Já reparaste nos verbos que usas mais quando falas do tempo?
E agora, na Sala 2, vamos ver o que acontece quando tentamos multiplicar esse corpo, que é apenas um.
SALA 2 » A ficção científica da ubiquidade
A agenda digital parece ter-se tornado espaço de ficção científica: pessoas que se multiplicam e ocupam vários lugares ao mesmo tempo. Reuniões sobrepostas, convites duplos aceites e a promessa de estarmos em todo o lado.
Claro que isto não é real. Assim como dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, uma pessoa não pode estar em duas reuniões simultâneas. Mas a agenda digital permite marcar o impossível, e nós começámos a comportar-nos como se fosse negociável.
Porém, o corpo não sincroniza com o Google Calendar. Tem um só lugar de cada vez, ritmos próprios, necessidade de pausas que não cabem em intervalos de 15 minutos.
E há um fenómeno particular: o trabalho que, tantas vezes, inunda e monopoliza os espaços da agenda. Blocos profissionais que se estendem, que invadem margens, que ocupam o calendário como se fosse um território a colonizar.
Algo que podemos repensar quando paramos e reparamos que a agenda não é um objeto neutro, mas sim o que fazemos dela. Quando percebemos que cuidar da nossa agenda significa também cuidar do nosso tempo e do tempo das pessoas com quem nos comprometemos a estar.
Aceitar uma agenda com espaços em branco pode ser um passo importante nesse sentido. Uma vida “com propósito”, que “vale a pena” não precisa de ter como pré-requisito uma agenda sobrelotada.

🗓️ Que cultura de apreciação do tempo queremos cultivar, começando pela forma como marcamos (e desmarcamos) reuniões?
🗓️ Quando olhas para a tua agenda, vês espaço para respirar?
🗓️ No altar do tempo, onde estás a colocar a palavra “produtividade”?
Saímos da ficção científica e passamos para uma terceira possibilidade: a da agenda também ser memória (e não apenas projeção).
SALA 3 » A agenda (também) como arquivo do vivido
A agenda digital pode guardar quase tudo. Reuniões, compromissos, tarefas. Mas não só…
Já pensaste que também poderá guardar filmes que viste, livros que leste, concertos que te marcaram, conversas que não queres esquecer?
Infelizmente, a maior parte das agendas digitais vive povoada de blocos de trabalho e compromissos profissionais. E está tudo bem, é para isso que, muitas vezes, precisamos delas.
No entanto, a tecnologia permite outra coisa, se quiseres experimentar: anotar também o que viveste, além do trabalho.
Para facilitar esse registo (e não criar mais uma tarefa), podes usar emojis:
🎬 para um filme
🎵 para um concerto
📚 para uma leitura
🎭 para um espetáculo
Um símbolo visual, rápido, intuitivo, que torna o registo leve e a revisita clara.
Desta forma, a agenda torna-se algo híbrido: parte projeção (o que vem), parte arquivo (o que foi).
Certamente que o papel continuará a ser o lugar privilegiado para notas desenvolvidas, reflexões livres, pensamentos que precisam de caneta na mão, e não de teclado nos dedos.
Porém, a agenda digital, vista desta forma, propõe algo diferente: guardar tudo num só sítio, pesquisável, ordenado no tempo. E, assim, no final do ano, como ritual de fecho de ciclo, podes percorrer os doze meses.
A agenda passa a ser arquivo das várias formas como habitaste o tempo, e não apenas como o preencheste. Começa a mostrar-te outras coisas: meses mais intensos de cultura, várias semanas silenciosas, fases em que leste muito, outras em que saíste pouco.

🗓️ E se a tua agenda guardasse não só obrigações, mas também memórias do que viveste?
🗓️ Como seria revisitar os últimos meses? Reparar em padrões ou redescobrir pequenos momentos?
🗓️ Que breve ritual de revisita (mensal ou anual) te parece interessante experimentar?
O que levamos desta exposição?
À Saída, lê-se:
Três agendas. Três formas de nos relacionarmos com o tempo.
1. A agenda que tem corpo. Respeita os ritmos naturais, os ciclos das estações, o tempo sentido pelos sentidos. O tempo também como Kairos, e não apenas Chronos.
2. A agenda que tem vírgulas. Guarda espaço em branco, permite respiração entre blocos, não confunde presença com ubiquidade impossível.
3. A agenda que tem memória. Preserva o que está por fazer, mas não esquece o que foi vivido. Torna-se arquivo de cultura, afetos, pequenos momentos. A agenda deixa de ficar limitada ao futuro, podendo ser passado que se presentifica a cada visita.
Caetano termina a Oração ao Tempo assim:
“E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo”
Talvez reunir-nos com o tempo noutro nível seja precisamente isto: estar bem dentro do corpo, da alma e da vida que já temos, em vez de habitar permanentemente o futuro que a agenda promete.
2025 está prestes a terminar e em vez de a pergunta ser “Como otimizar 2026?”, pode ser: “Em que nível queremos reunir-nos com este novo ciclo de 365 dias?”
Espero que o teu 2026 seja um ano de acordos mais gentis com o tempo! 🥂
Leituras-exposição, uma série especial do Plano de Fuga, que agora chega ao fim
Esta série reuniu textos que nos convidaram a refletir de forma multidisciplinar sobre objetos do nosso quotidiano. Pequenas coisas que carregam histórias, memórias e camadas implícitas.
Cada leitura-exposição desta série ofereceu três salas, três lentes, três modos de ver o mesmo objeto.
No total, foram montadas 12 leituras-exposição, que perfazem 36 salas (3 salas por edição) e tivemos, até ao momento, + 2.500 visitantes.
Agradeço muito todas as partilhas, comentários e mensagens privadas enviadas.
Um convite antes da despedida
E porque um fim também pode ser um começo, no dia 13 de Janeiro, estreamos uma nova série no Plano de Fuga! Sobre o que será? :-)






A ideia da agenda como acordo (e não como controle) com o tempo ficou ecoando em mim, especialmente essa distinção entre Chronos e Kairos. Me tocou perceber o quanto tento caber numa lógica infinita enquanto sigo tendo um corpo finito. Saio desse texto com vontade de renegociar meus compromissos, menos com a produtividade, mais com o ritmo, a memória e a presença.