Onde começa o começo?
A origem como escolha
Cabe numa conversa, numa mensagem e, tantas vezes, numa consulta.
“Desde quando?” é aquela pergunta que fazemos vezes sem conta.
Fazemo-la sobre medos, hábitos, formas de ser ou agir.
Como se houvesse sempre um momento que pudesse ser assinalado com o dedo indicador: “Foi aqui! Foi a partir daqui que tudo começou!”.
Quando o fazemos, estamos a aceitar que sabemos reconhecer começos, já que eles tendem a começar da mesma maneira, no número um.
Mas e se houver começos a começar de outras formas?
Olha o caso do mar…
O mar começa na areia ou acaba na areia?1
Nestes mares, o “desde” parece aquela voz de comando a pedir para regressarmos ao porto.
E depois, lá vamos nós, à zona dos arrumos do barco, à procura de um momento, de uma pessoa, de um lugar, de uma viagem, de um livro, que seja “suficientemente” inaugural.
Com maior ou menor facilidade, escolhemos algo fundador e construímos, a partir daí, uma linha de raciocínio.
O “desde” passa a ser a nossa decisão sobre onde a história que vamos contar começa e, nessa medida, ajuda-nos a explicar o desenrolar dos acontecimentos da forma como sucederam.
Ainda assim, ao fixar um início, deixamos em mar alto tudo o que veio antes do momento eleito, para podermos atracar a história a um “desde” seguro.
Quando, na verdade, talvez não precisemos de oficializar todos os começos.
Os começos também podem ser boias a flutuar num mar que não começa nem acaba. E nem sempre as vamos conseguir identificar…
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.
“Como Começa?” | Livro de Silvana Tavano com ilustrações de Elma (2018)




