O artista que não queria ser artesão
E preferiu Saturno a Mercúrio
Quem lia o céu na Idade Média sabia que Saturno era o planeta dos extremos. Sem meio-termo.
Sob a influência saturnina, a intensidade tornava-se uma condenação com contrapartidas. Significava carregar um fardo que os outros não viam nem sentiam.
Saturno era também o mais lento, entre os planetas visíveis a olho nu, por demorar cerca de 29 anos a completar uma volta ao Sol. Uma lentidão que também era lida como profundidade.
Margot e Rudolf Wittkower escreveram um livro1 sobre esse imaginário saturnino em diálogo com o mundo artístico europeu (branco e masculino), no período do Renascimento.
Ao estudarem séculos de vidas de vários artistas, chegaram à conclusão de que aquilo que parecia um destino/fatalidade podia ser outra coisa. E para perceber o quê, foi preciso recuar na linha cronológica.
Por muito tempo, o pintor trabalhou como o sapateiro. Isto é, aprendia um ofício, entrava num grémio, produzia por encomenda e dentro de uma certa hierarquia.
Em linhas gerais, a diferença entre um fresco e uma sola de sapato era “apenas” a técnica aplicada.
Ou seja, havia o artesão mais (ou menos) dotado, reconhecido e bem pago. Porém, não havia o “artista”. E foi no Renascimento que esse desconforto se foi instalando, aos poucos.
Até então, era sob o signo de Mercúrio que os artesãos operavam. Mercúrio, o planeta da competência, da destreza e da troca. Mas para alguns, era “pouco”.
E, assim, através de uma apropriação gradual de um imaginário que estava disponível, Saturno foi sendo convocado.
Com toda a sua carga de mistério, era o planeta que transformava a excentricidade num sinal de eleição e a loucura numa prova de inspiração.
Alguns artistas adotaram este imaginário, outros recusaram-no ou, simplesmente, não correspondiam a esta caracterização. Depois, o que veio robustecer o mito foram os biógrafos.
Entre eles, Giorgio Vasari2 foi um dos principais veículos de transmissão desta ideia do criador indomável, marcado pelo cosmos e consumido pela obra.
Michelangelo dormia vestido. Caravaggio matou um homem. Piero di Cosimo fervia cinquenta ovos de uma vez para não interromper o trabalho.
Estas histórias circulavam e o que os Wittkower identificaram no seu livro foi um mecanismo ideológico: o comportamento desviante tornava-se evidência do génio.
Vários pintores e escultores procuravam, afinal, uma posição fora da hierarquia existente, justificada por algo que transcendesse a qualidade do seu trabalho.
Desta forma, a alienação do artista, a melancolia saturnina, tudo isto foi construído. Os Wittkower dizem mesmo que foi algo estratégico quando perceberam que, em vários casos, a excentricidade e a loucura foram ferramentas de ascensão social.
Depois, claro que o mito não ficou em Itália. Viajou no espaço e no tempo.
Foi sendo reproduzido (e explorado) vezes sem conta e continua a ser daqueles mitos colados ao imaginário da criação.
Ao ponto de, até nos dias de hoje, parecer difícil emanciparmo-nos desta figura e desta atmosfera criativa de constante consternação.
No entanto, há outros modos e moldes que nos podem ajudar a caracterizar o que acontece quando alguém cria ou se propõe a criar.
Por exemplo, a intensidade do processo nem sempre precisa de se concentrar num único corpo para ter peso ou ser válido.
Além disso, o que criamos pode ser o cordão umbilical que nos coloca em relação com o todo, em vez de ser a tesoura que o corta para afirmar a nossa singularidade.
Já pensaste no que fica por imaginar e experienciar quando assumimos que criar tem inevitavelmente um pré-requisito saturnino?
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.
“Sob o Signo de Saturno: O Carácter e o Comportamento dos Artistas” | Livro de Margot Wittkower e Rudolf Wittkower (1963)
“Vidas dos Artistas” | Livro de Giorgio Vasari (1550)




