Nem tudo o que permanece foi preservado
Os arquivos também sabem guardar silêncios
Falar ou escrever sobre um assunto implica ocupar um lugar e estabelecer uma relação com as pessoas que povoam o tema.
E quando o assunto é colonialismo, a tarefa não é, de todo, fácil. Desde logo, porque se ergueram (e naturalizaram) categorias sobre corpos para se impor uma ordem de império.
Categorias essas, que não se limitaram aos discursos. Encontraram, também, na cartografia (e no território cartografado) um reforço que define uma hierarquia de escala e de posição - superior ou inferior.
Por essa razão, não é surpreendente que esta lógica se reflita nos arquivos, já que os principais acervos se encontram no Norte que colonizou, onde continua a estar, tantas vezes, o poder de decisão sobre o que se estuda, valoriza e preserva.
A “geografia do conhecimento” tende a andar de mãos dadas com a “geografia do poder” e essa lógica sustenta a ideia de um centro que se define a si próprio como norma e referência.
O arquivo herda, assim, esse viés, ao mesmo tempo que reúne dois territórios que a violência costuma manter separados: os documentos enquanto artefactos e os sujeitos que neles são retratados, evocados ou apagados.
Por isso, descolonizar um arquivo colonial exige que lhe façamos outras (e novas) perguntas e que reconheçamos os seus próprios limites. É neste contexto que a investigadora Saidiya Hartman1 propõe a fabulação crítica como metodologia de investigação que parte das lacunas e distorções produzidas pelo arquivo.
Quando o assunto é a escravatura, por exemplo, Hartman dirige a atenção para o desencontro entre a experiência vivida pelas pessoas escravizadas e as narrativas produzidas pelos documentos oficiais - quase sempre escritos por quem detinha o poder de registar e interpretar.
O silêncio do arquivo carrega, assim, o peso de uma violência histórica que tornou determinadas vidas ilegíveis ou apenas narráveis através da linguagem dos seus opressores.
A fabulação crítica surge como uma escrita ancorada na investigação histórica que explora o condicional, a especulação e as possibilidades sugeridas pelos vestígios documentais para questionar as versões autorizadas da História.
Sem pretender preencher, em definitivo, os seus vazios, procura recontar o passado com coragem, evidenciando os mecanismos que produziram essa omissão e imaginando, de forma responsável, aquilo que o arquivo oculta.
Nas palavras de Hartman, trata-se de contar uma história impossível e amplificar a impossibilidade de a contar.
Talvez já seja tempo de adotarmos um sobre mais horizontal, que nos coloque ao lado a lado (e, não, acima) e que dê espaço à imaginação enquanto ferramenta histórica válida.
Afinal de contas, continua a haver muito por (e para) contar…
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga que agora chega ao fim
Nesta série de 12 edições, cada preposição foi um instrumento crítico e lúdico para pensar linguagem, poder, memória e futuro.
Podes recuperar todas as costuras aqui. 🪡
Muito obrigada por todas as partilhas, comentários e mensagens! Tornaram esta série muito mais rica.
Agora é tempo de pousar a agulha. O Plano de Fuga regressa em Setembro.
Um abraço! :)
“Venus in Two Acts” | Ensaio de Saidiya Hartman, Small Axe Vol. 12, No. 2 (2008)




