Nós, os animais, os telemóveis, os relógios, os aspiradores, as casas e até as cidades. A certa altura, tudo é (ou precisa de ser) inteligente.
A palavra “Inteligência” parece estar hoje por toda a parte, e aquela que tem “Artificial” como apelido veio-lhe dar ainda mais protagonismo.
Para pensarmos sobre ela, trago para o nosso balcão dos Perdidos e Achados uma das imagens do ensaio “What is intelligent life?”, de Abigail Desmond e Michael Haslam1. Uma professora de biologia da evolução humana e um arqueólogo que estuda o uso de ferramentas por humanos e outros animais.
Os dois convidam-nos a olhar para a inteligência como uma etiqueta colada a um saco. Dentro desse saco, a humanidade foi juntando diferentes capacidades como fabricar utensílios, comunicar, resolver problemas ou aprender com os erros. Capacidades essas, que ajudaram os nossos antepassados a sobreviver e a prosperar.
Além de capacidades, ao longo do tempo, o saco foi guardando várias ideias sobre o que significa ser inteligente, e uma das mais antigas aproximou o ser humano do funcionamento de uma máquina.
Em pleno Iluminismo, o filósofo francês La Mettrie chegou mesmo a descrever o corpo humano como uma máquina que dá corda a si própria. Já no pós-guerra, a cibernética passou a pensar o cérebro como um sistema de informação e controlo, e os primeiros computadores eram considerados cérebros eletrónicos.
Foi nesse contexto que, em 1955, John McCarthy propôs a expressão “inteligência artificial”, ao lado de Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon, quando a área ainda não tinha um nome consolidado e já circulavam opções como “estudos de autómatos”, “processamento complexo de informação”, “máquinas pensantes” ou a própria cibernética.
McCarthy queria demarcar-se da cibernética de Norbert Wiener e, anos mais tarde, admitiu que o uso da palavra “inteligência” foi intencional, para ser chamativo e captar financiamento.
Mas o saco foi guardando outras ideias ligadas à inteligência e nem todas o deixaram mais leve. Infelizmente, ao longo da história ocidental, a inteligência também serviu, muitas vezes, para decidir quem devia governar e quem podia ser colonizado, escravizado e excluído.
E se uma palavra foi usada durante séculos para justificar hierarquias e violência, é compreensível que o imaginário coletivo faça essa associação às “máquinas inteligentes”.
Atualmente, a IA amplamente usada retoma essa velha analogia entre mente e máquina e vai mais longe, com “poderes” que, há poucos anos, nos pareciam distantes.
Além disso, potencia um entendimento de inteligência (sempre) na linha do desempenho, da produtividade, da rapidez ou do lucro. E, assim, vão-se perdendo as nuances com promessas de respostas a todas as perguntas, encarando-se a complexidade e a incerteza como meros problemas a resolver.
Esta confiança de que os dilemas humanos cabem num cálculo vai deslocando as decisões para quem desenha os sistemas e afastando o centro de decisão de quem vive com as suas consequências.
Também se dilui ou tenta desvanecer o debate acerca daquilo de que “é feita” a IA. O apelido Artificial sugere algo imaterial, feito de código e de nuvem, quando, na verdade, estes sistemas assentam em centros de dados que consomem grandes quantidades de eletricidade e de água e dependem da extração de minerais.
Dependem também do trabalho mal pago de quem classifica imagens e filtra conteúdos violentos para que as máquinas pareçam autónomas. A investigadora Kate Crawford2 chega a dizer que a inteligência artificial não é nem inteligente nem artificial, por ser feita de recursos naturais e de trabalho humano.
A concentração desta “inteligência” em poucas empresas alimenta-se de dados, atenção, criatividade e tempo de muitas pessoas, tantas vezes, recolhidos sem consentimento. Inquieta-me, sobretudo, a facilidade com que esta indústria converte tudo em matéria-prima.
De regresso ao balcão dos Perdidos e Achados, Abigail e Michael despedem-se com a partilha de outra imagem. Dizem-nos que quando observamos uma paisagem através de um vitral, aquilo que vemos também depende das cores do vidro. E se a inteligência é aquilo que procuramos e também o meio através do qual olhamos, importa perceber de que forma as cores do vidro alteram a paisagem.
Esta imagem abre espaço para várias reflexões. Por exemplo, para onde nos leva o critério tecnocrático de inteligência? E se a inteligência deixasse de ser “a” medida para nos relacionarmos com o mundo e contarmos as nossas histórias?
Há outros imaginários de inteligência por criar, a começar pelos das vozes sistematicamente silenciadas. As mesmas vozes que esta palavra pode ter afastado ou oprimido.
O saco que traz “inteligência” escrito na etiqueta guarda muito mais do que a otimização da realidade. E nós sabemos disso. :)
Perdidos e Achados, a nova série do Plano de Fuga
Pensar também é um processo coletivo e quando o contemplamos damos conta das palavras que o possibilitam. Num tempo em que são várias as palavras que parecem enfraquecidas (e, tantas vezes, não chegar para transmitir o que queremos dizer), vamos ao balcão dos Perdidos e Achados para perceber o que se perdeu e o que ainda podemos achar.
“What is intelligent life?” | Ensaio de Abigail Desmond e Michael Haslam, revista Aeon (2024)
“Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence” | Livro de Kate Crawford (2021)



