Há sempre um alvo a abater ou um território a conquistar?
As batalhas que perdemos por começá-las
A coordenada “guerra” parece omnipresente nas estórias e na História.
As narrativas que fazem acrobacias lá em cima, no nosso imaginário, parecem ter quase sempre cá em baixo uma rede: a garantia de que existe um “propósito maior”, uma ameaça a enfrentar e um novo território a conquistar.
O mito do herói1 é essa rede que continua a moldar grande parte das narrativas ocidentais.
Um mito que atribui um enorme protagonismo à preposição “contra”.
Um mito que semeia batalhas internas e externas.
Um mito que torna a ameaça necessária e o conflito um pré-requisito.
O confronto torna-se o eixo central da vida e, a partir dele, aprendemos várias coisas: a competir, a procurar adversários, a interpretar a tensão como motor principal e a suspeitar de tudo aquilo que não cabe na lógica binária da vitória ou da derrota.
Aos poucos, o resto vai desaparecendo.
Mas o que é o resto?
São os mundos que estão a acontecer fora desse enquadramento do caçador, do conquistador ou do inimigo.
Porque há vida além da guerra.
Há estórias de surpresa.
Há estórias de improviso.
Há estórias de aleatoriedade.
Há vínculos que não nascem da ameaça.
Há rastilhos de curiosidade sem utilidade imediata.
Formas de existência (e de coexistência) que não dependem de um inimigo para ser ou pertencer.
Por isso, talvez precisemos de devolver protagonismo ao que foi secundarizado.
De falar daquilo que é comum, pequeno ou demasiado banal face à monumentalidade à qual fomos habituados (e nos fomos habituando).
De deixar que as coisas não tenham (logo, logo!) uma finalidade e que isso não as torne menos valiosas.
Vamos abrir a cancela e permitir que a alegria (e as nossas ideias) não tenham de pedir autorização à conquista do difícil, do raro ou do extraordinário para poder ser expressas.
Precisamos de experienciar a vida e impedir que o “contra” torne o nosso imaginário a sua monocultura latifundiária.
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.
A Teoria da Bolsa de Ficção [The Carrier Bag Theory of Fiction] de Ursula K. Le Guin (1986)






Uau! Não conhecia essa teoria da ursula, e olha que ja li bastante coisa dela! otimo texto
Ah que maravilha, Ettore! :) Este ensaio da Ursula é qualquer coisa de extraordinário. Super recomendo! Se quiseres, depois partilha o que achaste. Um abraço e obrigada!