Veste-se de verde.
É mais paciente do que a expetativa.
Não se armazena nem se acumula.
Estou a falar da “esperança”, uma palavra que, com o passar do tempo, foi perdendo força e movimento, até ficar parada e passiva.
Hoje, quando dizemos “tenho esperança”, é como se puxássemos mentalmente uma cadeira para nos sentarmos à espera de alguma mudança e talvez venha desse imaginário a ideia de que uma pessoa “realista” dificilmente a tem, por ser associada à inércia (e até à ignorância).
Pois bem, parece que a palavra “esperança” anda perdida e o curioso é encontrá-la no balcão dos Perdidos e Achados, no livro de Paulo Freire, Pedagogia da Esperança (1992).
Logo nas primeiras páginas, ele escreve que não há esperança na pura espera, desfazendo o equívoco que amarra a esperança à perna de uma cadeira, e avisa que, sem ação e sentido crítico que a sustentem, ela depressa se converte em desesperança.
A essa desesperança o autor reconhece razões históricas, económicas e sociais. Mas ainda que nem todos tenhamos as mesmas condições para esperançar, Freire recusa dá-la por perdida ou considerá-la privilégio de alguns.
Como o título do livro sugere, pode-se educar e cultivar a esperança, independentemente do ponto de partida de cada pessoa.
À luz dos dias de hoje, esta proposta traz algo muito diferente da positividade tóxica. Reconhece as condições e os contextos em que se vive, sem os apagar ou romantizar, e parte daí para aquilo que está ao nosso alcance fazer.
Fecho o livro com a ideia de uma esperança individual que sai a ganhar quando é nutrida com outras pessoas e com mais pessoas.
Penso na esperança como um campo que se cria quando nos juntamos para imaginar futuros possíveis, e isso inclui conversar com quem pensamos que não nos ouve ou quem julgamos indiferente.
Também olho para a esperança como ferramenta contra o ódio e a apatia, contra o fatalismo e a resignação, servindo, sobretudo, para combater o discurso do medo, que nos apresenta o fim do mundo como o único desfecho possível.
Como já percebemos, escancarar as falácias do "discurso do fim inevitável” não é suficiente. São precisas outras histórias, para que o medo deixe de ser vencido por outros medos e por mais desesperança.
Daí a importância de reconstruir a esperança e de revigorá-la como projeto de futuro. Enquanto vivermos, a vida conserva essa dimensão de futuro.
A cadeira pode esperar.
Perdidos e Achados, a nova série do Plano de Fuga
Pensar também é um processo coletivo e quando o contemplamos damos conta das palavras que o possibilitam. Num tempo em que são várias as palavras que parecem enfraquecidas (e, tantas vezes, não chegar para transmitir o que queremos dizer), vamos ao balcão dos Perdidos e Achados para perceber o que se perdeu e o que ainda podemos achar.



