À primeira vista, o pensamento parece algo só nosso por ser bastante pessoal e, por vezes, até solitário.
No entanto, graças à linguagem, pensar também pode ser a atividade mais coletiva de todas. Afinal, todos pensamos com palavras.
Gosto de revisitar a metáfora da escritora mexicana Valeria Luiselli, que nos diz que as palavras são parteiras de revoluções sociais e da mudança.
Agora, essa mudança pode tomar várias direções … e as palavras podem transformar-se em armas cruéis, nas mãos e na boca de quem as instrumentaliza para perpetuar desequilíbrios e ameaçar direitos.
Nestes casos, vêm-me logo à mente as filósofas Hannah Arendt e María Zambrano, que refletiram sobre o que acontece em regimes totalitários.
A partir do momento em que o poder político se apodera do discurso e dissemina medo, desconfiança e incerteza, o tecido coletivo começa a desfiar-se.
Um desfiar que nem sempre é evidente. Mesmo em democracia, conseguimos reconhecê-lo no nosso dia-a-dia, quando as palavras são banalizadas e, aos poucos, se esvaziam de sentido e de significado.
Sermos indelicados com as palavras passa, sobretudo, por achatá-las, retirar-lhes toda a complexidade e carga conotativa, ou repeti-las até deixarem de (nos) dizer alguma coisa.
Quando isso acontece, além das palavras em si, perdemos maneiras de ver, nomear e imaginar. E, sem darmos conta, podemos ficar reféns do vocabulário que outros escolhem por nós. Seja para dividir, servir interesses particulares ou reduzir tudo a uma linguagem algorítmica, que tende a homogeneizar textos e discursos.
Ainda assim, acredito que perder também pode ser um ponto de partida, já que o que se extravia deixa um espaço em aberto e, aí, podemos encontrar e criar algo novo, com sentidos esquecidos ou usos inesperados.
Achar, aqui, passa por alargar territórios e ampliar entendimentos, com espírito crítico e responsável, sem abdicar de uma dimensão lúdica e brincante.
É neste vaivém entre perder e achar que te escrevo o prólogo de Perdidos e Achados, a nova série do Plano de Fuga, que estreia para a semana.
Nas próximas 12 edições, escolho uma palavra de cada vez e, em cada publicação, sigo três rastilhos:
1 _ O desgaste que o uso lhe foi causando;
2 _ As camadas que parecem resistir;
3 _ E os trilhos, as pessoas e os projetos que a estão a devolver ao mundo de outras (e novas) formas.
Enquanto membros de uma comunidade linguística, podemos envolver-nos neste exercício de (re)pensar a reverberação das palavras que circulam entre nós.
Creio que seja um processo contínuo que envolve observação, revisão e renovação, para que as palavras não se vejam monopolizadas e sequestradas em narrativas simplistas ou tirânicas.
Esta série foi criada para nos colocar à volta de uma mesa. Para nos provocar a pensar (e a imaginar) em relação e em constelações possíveis.
Conto contigo? :)


