Além do olhar
Em nome de uma arquitetura de sentidos
O cheiro a terra molhada. O frio do mármore nas mãos. A desordem sonora do começo do dia.
Tudo isto acontece num corpo, que não se resume ao que ele vê.
Enquanto o corpo guarda o “todo”, os nossos olhos captam apenas uma parte.
Ainda antes do boom digital e da IA, o arquiteto Juhani Pallasmaa1 já nos falava do ocularcentrismo. Desta tirania do olho sobre os restantes sentidos e do privilégio histórico da visão, na tradição ocidental.
Dizia-nos, nos anos 90, que o computador (e hoje podemos estender também ao smartphone) semeava a distância entre o arquiteto e o objeto criado e que afastava o projetista do contacto direto com o espaço.
Hoje em dia, continuar a imaginar espaços e experiências, tendo o olho como protagonista, acaba por perpetuar aquilo que aqui podemos chamar de “arquitetura-perante”. Ou seja, uma forma de relação passiva, em que se convoca sobretudo a visão, sem haver qualquer interrogação, entendimento ou envolvimento efetivo com o que é encontrado.
É a arquitetura do jardim que existe para ser visto da janela, da cozinha decorada para quem não faz refeições em casa ou daquela exposição que deslumbra à primeira vista, mas que parece esgotar-se no espetáculo audiovisual.2
Além de ver o mundo (e as representações do mundo), o nosso corpo precisa de interagir com o mundo.
A vida pede mais do que olhos. Pede, cada vez mais, corpo inteiro e sentidos esbugalhados.
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.
“The Eyes of the Skin: Architecture and the Senses” [Os Olhos da Pele: A arquitetura e os sentidos] | Livro de Juhani Pallasmaa (1996)
Tem-me acontecido isso com mais frequência. Visitar exposições e, no final, ficar um pouco frustada. A ti, também? Parece que é uma tendência. Num contexto em que uma imagem partilhada vale divulgação, alcance e bilheteira, são já várias as iniciativas culturais que estão a ser desenhadas nesse sentido. No entanto, aquilo que prende o olhar nem sempre é o mesmo que alimenta outras camadas da experiência. Sobretudo aquelas camadas que requerem tempo e atenção da nossa parte.




