A rima que não estava lá
O inglês como falsa língua-berço
O Vale Sem Cor chegou este ano a Portugal pela editora Trinta por Uma Linha e, na Feira do Livro de Lisboa, Inês Costa e Ana Margarida Ramos conversaram com a autora chinesa, Dai Yun, sobre o que acontece quando um livro atravessa uma língua.
Um dos temas abordados foi a questão das ilustrações. Nesta obra, um trabalho de Iwona Chmielewska.
Inês e Ana Margarida partilhavam que, no mercado editorial infantil, é frequente traduzir-se apenas o texto, sem consultar as imagens. Algo que, felizmente, não aconteceu na edição portuguesa d’O Vale Sem Cor.
Enquanto ouvia estas partilhas, a preposição "por" foi ganhando protagonismo.
Falava-se em traduzir por palavras e em traduzir por imagens, sendo que cada escolha é já uma interpretação do que o texto é e do que acreditamos que deva ser.
E neste tipo de livros-álbum, o texto e a imagem têm longas conversas: ora a palavra deixa em aberto, ora a imagem preenche; ora a imagem nos leva noutra direção, ora a palavra nos ancora.
Por isso, descartar a imagem e trabalhar apenas com o que foi escrito dá-nos uma leitura parcial (ou mesmo incompleta) do livro. Acaba por ser uma cisão precoce, ainda antes de começar a pensar na nova língua de narração.
E se a imagem já pode comprometer a travessia, o que dizer das diferenças linguísticas?
Inês Costa e Ana Margarida escolheram não traduzir a obra a partir da versão inglesa e trouxeram um detalhe muito interessante: a edição inglesa foi escrita sob a forma de rima, com uma cadência e musicalidade que não encontraram no original, em chinês.
Quando falaram com Dai Yun, descobriram que a rima não era da sua autoria, mas sim uma invenção da tradução inglesa.
A partir daí, decidiram fazer a travessia diretamente do chinês.
Uma travessia que rendeu vários desafios, mas também boas gargalhadas. Afinal de contas, queriam entender como "fazer justiça" a esta história, originalmente contada em logogramas e que, pelos vistos, repetia várias vezes os mesmos adjetivos - algo que a autora frisou não serem redundâncias dispensáveis.
Mas ainda sobre as línguas, já reparaste como o inglês parece funcionar como uma espécie de passaporte universal no mercado editorial internacional?
Os livros traduzem-se para inglês e depois, a partir do inglês, para o resto das línguas. Muitas vezes, por ser mais rápido e porque, assim, os direitos já estão negociados.
O texto em inglês torna-se acessível para a maior parte dos editores, a cadeia reproduz-se e a obra traduzida vai-se afastando progressivamente da obra original.
No caso d’O Vale Sem Cor, certamente que a rima, que a edição inglesa cultivou, dará frutos noutras edições que a tenham como ponto de partida.
No entanto, essas edições vão herdar uma voz e um estilo que nunca foram os da autora.
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.





