A memória é feita de barro
A recordação, a nossa roda de oleiro
Entre o que vivemos e o que lembramos há uma distância que tentamos encurtar a cada recordação.
Em pequena, pensava na memória como um arquivo: os acontecimentos ficavam guardados e, mais tarde, podiam ser recuperados tal e qual.
Essa ideia não tardou a revelar as suas fissuras.
Ainda adolescente, li uma entrevista a um psicanalista que alertava para as armadilhas da memória e para termos cuidado em não confiar demasiado nela.
Na altura, foi uma pedrada no charco das minhas certezas: “Como assim? Não posso confiar no que me lembro?”
Não era bem isso…
Era mais o tatear de uma porosidade entre o acontecimento e o seu rasto e a revelação (ainda tímida) de que a memória não é estática nem imutável.
A memória respira, hesita, reorganiza. Uma e outra vez.
E essas impermanências que vamos detetando são parte dessa roda de oleiro, que vai girando dentro de nós.
Acaba por não haver “um” momento específico em que a peça muda de forma.
Trata-se de um movimento contínuo entre o barro e as mãos que vai transformando a memória, sem que seja óbvia a separação entre o que veio de fora e o que emergiu do próprio processo.
Vemos que há detalhes que se impõem e densificam, com ramificações que antes não existiam. Outros, desvanecem-se, retraem-se ou chegam mesmo a desaparecer (pelo menos, de acordo com moldes prévios).
Cada vez que regressamos às nossas histórias, algo se altera.
Não há uma narrativa parassemprista, e ainda bem!
Talvez seja essa a condição do barro fresco a que chamamos memória: teima em não secar.
Costuras da Linguagem, uma série do Plano de Fuga
As preposições estão entre as palavras mais pequenas que usamos e talvez passem despercebidas por serem aquelas costuras que não se veem, que estão do lado de dentro da linguagem.
Sem darmos conta, são as preposições que vão sustentando sentidos: ajudam-nos a estabelecer relações, situam-nos no tempo e no espaço, permitem-nos abrir e fechar possibilidades.
Nesta série, cada preposição é uma tecnologia, um instrumento lúdico para pensarmos no que escrevemos e dizemos.





